O novo Coronavírus trouxe problemas e preocupações para o mundo inteiro, muitos países estão buscando se flexibilizar de forma consciente com a presença do vírus, mas algumas instituições continuam encontrando grandes empecilhos com o isolamento social. As adoções de crianças e adolescentes no Brasil é um dos casos, somente no 1° semestre deste ano houve uma queda de 49% das adoções em relação ao ano anterior.

Ao contrário dos índices de adoções, o mercado editorial teve um grande aumento durante a pandemia de COVID-19. Os brasileiros estão cada vez mais se encontrando dentro dos universos proporcionados pela arte da escrita, e alguns escritores estão se destacando neste período ao narrar histórias que envolvem personagens adotados.

As dificuldades que o novo Coronavírus levou para os abrigos de adoções são variadas, desde pretendentes que não se interessam em crianças com mais de 5 anos de idade, casais inscritos que se separaram durante a pandemia, os estágios de convivência e entre vários outros que os escritores levam para suas histórias, porém, todas escritas antes da COVID-19 se alastrar pelo mundo.


457 Milhas, de Rachel Fernandes
Na história, acompanhamos dois personagens que se odeiam fazendo uma viagem para Punta del Este (Uruguai). Um deles se chama Emílio e passou a vida inteira em uma instituição de acolhimento, infelizmente ele foi um dos casos de adoção tardia, porém durante todo o seu período dentro do abrigo foi adotado por casais e depois devolvido. Somente perto da sua maioridade, a dona do acolhimento resolveu adotá-lo.

O livro não fala exatamente sobre os processos de adoções de Emílio, muito pelo contrário: narra uma aventura cheia de humor e drama dentro de um carro em uma viagem para outro país. Mas a escritora Rachel Fernandes traz reflexões sobre a adoção tardia, já que 73% pretendentes inscritos no processo aceitam crianças com até 5 anos de idade, enquanto somente 27% das crianças têm menos de 6 anos.

457 Milhas é o livro vencedor da SweekStars 2018.


Um amor (quase) perfeito, de Lucy Santos
Com traços de uma experiência real, a escritora se propõe a compartilhar o um pouco do seu processo de adoção por meio dos protagonistas Ricardo e Verônica no livro “Um amor (quase) perfeito”. Trazendo reflexões sobre a adoção tardia, o processo demorado, a adaptação de um novo lar e a realidade dos abrigos, ela narra um romance que transita entre cenas de humor, drama e algumas eróticas.

Um dos pontos mais fortes abordados na história envolvendo adoção, é o fato das crianças mais velhas não serem uma opção para a grande parcela dos pretendentes. Nos abrigos brasileiros, 83% das crianças têm acima de 10 anos, e somente 2,7% dos pretendentes inscritos aceitam adotar pessoas acima dessa faixa etária. Infelizmente, isso causa um envelhecimento do cidadão dentro das instituições de acolhimentos, também acarretando outros problemas.

“Um amor (quase) perfeito” será lançado este ano, mas os protagonistas são narrados em outra história independente como personagens secundários, onde já se falava da adoção.


Eu sinto muito, de Luíza Freire de Menezes
O juiz da Vara da Infância e Juventude de Paulista, Ricardo Leitão, em uma entrevista afirmou com o G1 - Globo (PE) que houve um grande número de divórcios de casais pretendentes durante a pandemia de COVID-19, principalmente no processo de estágio de convivência. De fato houve um aumento de 60% a 70% em relação ao mesmo período do ano passado, mas o livro escrito por Luíza Freire de Menezes traz uma realidade contrária.

Na história, a protagonista sofre diversos traumas aos 6 anos de idade por presenciar cenas de violência doméstica que acabaram em duas mortes. Ela é levada para um abrigo e passa por alguns lares provisórios enquanto nova, mas após os 10 anos de idade encontra grandes dificuldades de ser adotada.

Como qualquer outra ótima narrativa, “Eu sinto muito” é uma história que não se limita nos traumas e problemas da adoção tardia da protagonista, mas ao lado de um novo amigo ela entra em uma jornada de encontrar respostas sobre o seu passado.