Sempre que anunciam um filme com romance entre duas mulheres, você sente a tensão do público. Vai ser mais um bury your gays? Ou finalmente "Carol" não vai ficar isolado como o melhor filme do tipo? Foram as perguntas que logo me vieram na ideia quando eu assisti "Retrato de uma Jovem em Chamas". Sim! Eu assisti o dito cujo. O resultado, eu espero traduzir bem nesse review.


O trailer

Assim você entende tudo, e não perde nada.


O que é?

"Retrato" conta a história de Marianne (Noémie Merlant), uma jovem pintora que recebe um trabalho: pintar o retrato de Héloïse (Adèle Haenel) para o seu casamento. Sem que ela saiba. Marianne então passa os dias observando Héloïse, com a desculpa de ser a sua nova dama de companha. E às noites, ela pinta o infame retrato. Essa dinâmica faz as duas se aproximarem bastante, tendo uma experiência que jamais será esquecida.


O filme é bom?


Bastante. Por ser um filme francês, a comunicação é bem diferente do enlatado americano que a gente tanto vê. "Retrato" é mais que uma narrativa de amor proibido. Essa questão fica marcada de maneira ao mesmo tempo sutil e clara, o que é fantástico. O filme na real observa como funciona o desejo, e martela a força da arte para registrar memórias. Mesmo tendo dilemas, eles fogem dos melodramas que você iria esperar em filmes assim.

A direção de Céline Sciamma é muito sagaz. Situado na pré-Revolução Francesa, ela nos leva a um casarão numa ilha, longe da agitação urbana. O que se tem, é um ambiente que parece bem vazio - fisicamente falando. Nem as roupas chamam a atenção, o que é batata num filme de época. 

É aí que a cineasta cria uma dinâmica tão boa entre Marianne e Héloïse, que você agradece por não ter esses ruídos. Não bastando, ainda tem a jovem empregada Sophie (Luàna Bajrami). Ela é peça chave para abordar um tabu sem rodeios, e a amizade dela com as protagonistas mostra como a sororidade pode salvar a vida de uma mulher. Literalmente.

Destaque(s)

Quem rouba a cena em "Retrato de uma Jovem em Chamas" é a experiência. E os detalhes.

A tensão entre Héloïse e Marianne puxa você de uma forma incrível. Fisicamente ela é contida, mas é muito intensa através dos olhares e linguagem corporal. Marianne, a parte inteligente, passa de observadora a observada. Héloïse é pintada (HEH) de um jeito apático e até pouco inteligente, mas logo ela prova ser muito sagaz.

Muito se disse do filme ser o "manifesto do olhar feminino", e é isso. Personagens homens quase não aparecem, e quando é o caso, você não vê o rosto. Ainda assim, a influência do patriarcado na vida das mulheres é sentida com força, limitando sua liberdade de tudo que é jeito. 

Vale assistir?


Vale. "Retrato de uma Jovem em Chamas" é um filme de época, mas não glamoriza os figurinos, o que é diferente. O trunfo é o pequeno universo criado entre Marianne, Héloïse e Sophie, com uma beleza de cenários, atuações e roteiro difícil de explicar. Gostei bastante de como a diretora usou esses elementos conhecidos, mas quebrando as expectativas.

O final é melancólico, mas de um jeito bonito. E até positivo. Não posso explicar exatamente, pois seria um baita spoiler. Então solte o play lá no Looke que confira o filme, porque vale muito a pena.


Retrato de uma Jovem em Chamas (2019)
Portrait de la jeune fille en feu
Estreia no Brasil: 9 de janeiro de 2020
Duração 2h20min
Direção: Céline Sciamma
Roteiro: Céline Sciamma
Elenco: Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami, Valeria Golino, Armande Boulanger