Eu sei que já passaram alguns dias, mas feliz ano novo! Sobrevivemos a 2020, e a batalha continua. Por aqui, vamos ao meu primeiro review do ano, para falar de O Quarto de Vidro. Lançado em 2019, o filme retrata uma história de amor tocante, com pano de fundo histórico, que não atinge os 100% de potencial por alguns poréns.

E vamos de explicar a trama


Dirigido por Julius Sevcík, O Quarto de Vidro é baseado no livro de mesmo nome escrito por Simon Mawer. Ambos são inspirados pelos eventos dramáticos da Europa do século 20, desde o início dos anos 30, passando pela Segunda Guerra Mundial até a ocupação da Checoslováquia em 1968.

O filme nos apresenta ao casal Viktor (Claes Bang) e Liesel (Hanna Alström). Recém casados, os dois encomendam um projeto de casa com o arquiteto Von Abt (Karel Roden). Após ganhar vida, a casa será o centro da trama, refletindo a passagem do tempo, e apresentando mais pessoas. Uma delas é Hana, a melhor amiga de Liesel que é vivida por Carice van Houten - a Melisandre de Game of Thrones.

Um salto acertado no tempo

O Quarto de Vidro cumpre a primeira promessa: entregar uma boa ambientação, que leva você de volta a outros tempos. De toda produção, o que eu mais gostei foram os cabelos. É legal como os cabelos das protagonistas refletem a passagem da idade, mesmo que as atrizes obviamente sejam as mesmas. Mas o que eu mais gostei mesmo, foi a trilha sonora. Ela carrega o filme de forma delicada e impecável, marcando e até reforçando o humor de cada cena. E aqui eu digo humor em todos os sentidos: tensão, tristeza, alegria, e assim por diante.

Fórmula batida, mas eficaz

Liesel e Hana seguem a receita milenar do romance entre loira e morena. É uma fórmula batida? É. Mas não é das ruins, eu gosto. O romance é "empatado" não apenas pela sociedade da época, tão preconceituosa como a atual. Existem questões históricas sérias, que colocam a vida de todos em risco. E isso nos leva ao momento mais triste do filme.

Esse momento estabelece uma dinâmica triste e melancólica entre Liesel e Hana. Ela explora bem a sua capacidade de se conectar às personagens, criar empatia e fazer com sucesso que você torça ainda mais por elas. Até mais do que outra cena bem bacana. Nota mental: sim, eu gostei mais da Hana só porque "reconheci a Melisandre."

Ah, se o diretor tivesse sido só um pouco mais ousado...

Quase - literalmente

O Quarto de Vidro deixa de ser um filmão por uma ideia burra do diretor. O longa é cheio de quases. O que eu quero dizer? Pense numa cena X, dramática e cheia de tensão. Quando ela chega no ponto alto, o filme corta para outro momento totalmente nada a ver. Isso tira todo brilhantismo, pois são cenas muito boas. O resultado são cenas meia bomba, um anti-clímax absurdo, e a mistura de frustração com raiva de quem assiste.

E sim: mesmo o momento mais importante, bonito e relevante do filme, tem parte da beleza roubada por essa decisão estúpida.

Então...

O que nós temos aqui é um filme de contrastes. O Quarto de Vidro não tem qualidades suficientes para ser sensacional, nem defeitos a ponto de ser um lixo. É um filme decente, e agora que você sabe o maior defeito dele, se decidir assistir, vai ter uma experiência melhor do que a minha.

A produção me agradou. O roteiro, entretanto, não me conectou pra valer com os personagens - exceto as protagonistas. Eu entendi os dilemas e riscos que eles corriam, e se eu temi, foi mais por saber que o período histórico era um dos piores possíveis. Os cortes para saltar de época são pouco claros, mas isso eu relevei. Entendi que o foco era mostrar a resistência da casa através do tempo, tal com o sentimento entre Liesel e Hana. 

O final do filme é bonito e até fofo. Ele quebra um trope clássico dessas produções, o que me deixou um caminhão de aliviada. Afinal, sempre que o casal/foco do romance de um filme não é hétero, bate aquele mesmo medo...

Vai dizer que a Melisandre não lembra a Elizabeth Olsen em WandaVision?

Nota de rodapé

Sempre que surge um filme LGBTQIA+ de época com romance entre duas mulheres, é inevitável: vem na ideia o será que vem aí o novo Carol? Retrato de Uma Jovem em Chamas e O Quarto de Vidro têm esse detalhe em comum, mas cada um é sua própria entidade, com seu jeito de contar histórias. Eu ainda prefiro Carol, mas se você tiver um tempo, recomendo os três filmes.


O Quarto de Vidro (2019)
The Glass Room
Estreia no Brasil: 26 de novembro de 2020 (streaming)
Duração 1h46min
Direção: Julius Sevcík
Roteiro: Andrew Shaw
Elenco: Alexandra Borbély, Brian Caspe, Claes Bang, Hanna Alström, Jim High, Karel Dobrý, Kevin Michael Clarke, Martin Hofmann, Olga Plojhar Bursikova, Petra Buckova, Zuzana Fialová
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